Sinto saudades de ir embora… e ficar. Prezo pela falta de estar indo e não desmoronar – só desmorona quem está parado, quem se ausenta da constância de ir. Tenho saudades de mim, nisso, nesse andar da vida, que a tudo embrulha… e às vezes uma sonolência tardia é o desembrulhar…

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Quedas que repousam

Tomei banho de chuva, que molhou as plantas, que inundou a terra. Depois, com febre, o pesar da vida, as coisas como são, os olhares para baixo. Quando levantados, enxergam árvores, casas, céus, abismos – os necessários. O banho de chuva foi necessário também, para a queda, a febre, a dor, a fragilidade. Todo mundo tomou banho de chuva junto, embora, nem todos tenham se molhado. A chuva molha todo mundo, só não molha quem tem telhado. Mas ela não deixa de cair na cabeça de ninguém, repousa ali. É como a neve, quando de branco tudo inunda. Ah, a neve… a chuva… Tenho prazer pelas coisas que caem: a chuva, a neve, as folhas. As tristezas que derrubam – mas que ensinam que nem tudo fica embaixo e que, para cair, é preciso ter se levantado e que, para se levantar, é preciso ter caído. E assim, caio com as folhas, com a chuva, com a neve (no coração), caio com as temperaturas da vida, caio com o humor, com o silêncio alheio, caio com as distâncias, caio com as febres e caio de amor. Caio também por nem sempre saber o que fazer, como fazer. Caio de tanto tentar e caio mais ainda quando desisto. Caio e levanto, caio de novo e levanto outra vez. Entre quedas e ganhos, vou, vagarosa, entendendo, não concluindo, mas entendendo… que tudo cai. E que isso inevitável e que, de uma forma de outra, é essencial. 

[Escrito em 2016]

A distance there is

E eis que há uma distância – aquela que não sei por quanto tempo existirá. Mas que há. Por enquanto, é boa. E aliviante. N’outro lado, a queda. As quedas. A chuva. O som das ondas do mar. Não, isso não é ruim. É o som de um caminho que chegará a um destino. Que destino e caminhos são? O percurso lhe dirá. Que tom é esse? É arte. O tom do amor que não se esconde, na maioria das vezes. O tom das palavras sem sentido, que parecem não colidirem, mas que sofrem simbiose de sensação…
E o mais importante, ah… o mais importante hoje é o mar. A imensa e grandiosa azulidão de tudo.
Sonhe, coração selvagem… ser dos instantes que passam… My heart, my heart, my heart… A coisa mais importante do mundo é?

It.

[Escrito em 2016]

Olhar para o sol

machuca as retinas, dói as vistas. Há coisas que encaramos que doem como olhar o sol, no entanto, podemos escolher não olhar o sol diretamente e observar somente os seus reflexos. Já as coisas, algumas delas, só enxergando profundamente para compreender – e talvez, nem isso. Pergunto-me, ainda, a respeito desse tal profundo, o que é? Questiono-me se alcançamos o profundo ou se, de tão fundo, sofremos por pensarmos estar fundo demais.

A angústia é olhar o sol e sentir o vento cortando as lágrimas. É sentir saudade do que não se viveu. É ver as nuvens cobrirem até que seja noite. É sentir a relva das folhas e sonhar distante. É querer estar longe, longe, em outra estação.

Do quão fundo é possível olhar o sol?

De quando fiz 30 anos

Muito especial esse tal de 30 anos. Eu achava que seria mais uma data de aniversário comum, sobretudo não imaginava “trintar” em meio a uma pandemia, em meio a tantas coisas que precisamos tentar ressignificar com outros olhos e sentidos. Mas fazer trinta com uma alma mista foi especial por todas as reflexões que me perpassaram no dia de ontem e vieram perpassando os dias. O mais valioso sempre é isso: as nossas reflexões e a nossa ação diante delas. E é isso o que espero para daqui em diante: tornar ação cada sentido, cada desejo, cada palavra, cada sonho. Pra que esta vida não passe tão batida, por vezes, pra que esta vida se ressignifique verdadeiramente em cada instante em que respiramos. Obrigada aos meus familiares, amigas e amigos tão maravilhosos, queridxs, especiais, às minhas alunas e alunos tão gentis e carinhosos por tantas palavras lindas, sinceras e cheias de amor que me trouxeram no dia de ontem. Sem esse carinho de vocês, não saberia compor os sentidos da vida. Amo cada uma e cada um e sou grata por estarem comigo na jornada, presencial ou não. Sinto que o amor ultrapassa fronteiras e sobrevive às intempéries do tempo, pela necessidade de amar que temos, e isso é lindo e sensível. E forte. Obrigada.


100 anos de Clarice

100 anos da bruxa mor, hoje, se ela estivesse aqui. Mas, pensando muito bem, ela está viva de tantas formas. Empilhei todos os livros, registrei umas fotos ao contrário e comecei a pensar e a relembrar tantos momentos, a maneira como a sua obra é importante pra mim e a pessoa dela também; nunca esqueci alguns momentos, como a primeira vez que li “Água viva” sem entender muito ou quase nada, tinha os meus 18 anos, acho, mas mesmo assim eu sentia cada palavra, inexplicavelmente. Desde então é o meu preferido e a cada vez que leio é a certeza de que entendo menos e sinto mais, rs. Clarice é isso: muito do sentir e pouco do palpável; o hermetismo de que ela discordava num plano do inalcançável, mas tão precioso como a efemeridade de um instante.
Ah, Clarice. Eu queria muito ter te conhecido, queria sim. Eu queria ter te olhado em carne osso uma única vez, porque se você me inspira com sua escrita, fico pensando no que me causaria com a sua presença, rs. Quis, por assim dizer, nomear aquela que é minha primogênita, não necessariamente para homenageá-la mas, para de algum modo, lembrar-me de que ela poderá ser luz no mundo como você é para mim e tantas pessoas, em sua forma de ser palavra, instante, mística, cosmos, atemporalidade, flor no peito.
Estarás sempre por aqui por perto, cuidando de nossa solidão e evidenciando que dela nos alimentamos, não morremos.

“Mas enquanto eu tiver a mim não estarei só”. (Água viva, p. 76, Rocco, 1998.)

Meu amor por pinhas e pinheiros

Eu amo pinheiros, não tem nada a ver com o natal, não. Gosto do natal também – apesar de não haver nenhuma conexão religiosa, acho uma data bonita mas para aí. Mas sobre os pinheiros, gosto da forma como crescem, da raiz, do caule cheio de caminhos, os ramos que são finos e grossos… e tem as pinhas, ah, as pinhas! Elas têm um cheiro esplêndido, um cheiro de floresta, um cheiro de casa. Quando estou perto das pinhas sinto uma paz que chega nas minhas memórias mais genuínas, àquelas das quais só eu sei. Sabe essas memórias? Aposto que do lado daí você também as têm…
Então, quer dizer que as pinhas são mágicas, enfeitam minha casa, meus cômodos e quem sabe uma hora eu vou tatuar uma, porque são lindas, lindas. Mas não era sobre isso que eu queria falar, era sobre esta ruga de choro que tenho no meio da minha testa, eu comecei a desenvolvê-la lá pelos vinte e tantos anos, acho que chorei muito nessa vida: lendo romances, poemas, comentários horríveis e mensagens maldosas na internet; assistindo os mesmos filmes várias vezes e outros tantos; querendo ser compreendida por quem, na maioria das vezes, não estava nem aí; vendo a vida passar e os sonhos também; sentindo saudades; sentindo angústia; sentindo desespero; tantos e tantos outros motivos…né?! Mas tem os choros de alegria que, na verdade, ardem o nariz, sabe? Mas hoje eu olho pra essa ruguinha e acho que ela é tão especial. Eu poderia enfiar a cara na base ou no filtro, mas não. Nem estou aqui pra “pagar geral” sobre quem enfia a cara na base e no filtro (cada um faz o que quer com a própria cara, afinal), mas, eu só queria observar que é tão bonito olhar pra essas marcas que a gente tem pelo corpo e notar a vida que existe por trás delas, sabe?! Sempre fui muito chorona, tudo me emociona, e sempre ouvi tanta gracinha – desde “você chora por tudo” até “tá querendo chamar a atenção” – mas quase nunca eu senti alguma vontade de ser diferente disso. Era sobre isso que eu queria falar, sobre acolher a si mesma, perceber a própria sensibilidade e aceitar que tudo bem ser chorona, não sou pior do que ninguém por isso e não tenho que forçar o contrário. Como pinhas, lágrimas caem, embaixo do pinheiro e de nossas vidas… 🌲♥

Viver dói muito.

Dói viver desde o abrir dos olhos, ao cortar o cordão. Dói amamentar e dói também parir. Dói quando levam embora da sala de parto, dói quando volta – tamanha beleza e perfeição, dói. Dói a doçura, dói a imensa sensibilidade, dói a forma de ser e de olhar. Dói as dores que sente, dói as que sentirá. Viver dói em cada passo, quando crescemos, doem os ossos. Doem os dentes que caem e que crescem. Doem os cabelos que cortamos, as quedas que tomamos, os joelhos que ralamos, os amigos que perdemos. Doem os silêncios que ouvimos e que damos – mas também as palavras que jogamos quando não temos sabedoria para pensar melhor. As desculpas doem, os erros doem, as repetições…elas doem no âmago. Sobretudo porque nós não a queremos. Ir dói, quando se quer ficar. Não ir dói, quando se quer ir. Sonhar dói…ah, como dói quando o sonho existe em um plano distante do real. Como dói pensar que não se realizará… Dói quando trabalhamos muito e cansamos. Dói a fome. Dói ver o outro na miséria. Dói ver o outro sofrer e não poder fazer nada. Dói ver o outro chorar e não saber o que dizer. Dói ver o outro sorrir e querer sorrir também. Dói ver o outro julgar sem saber, falar sem entender, afirmar sem perceber que o que foi dito está sob uma única perspectiva que não necessariamente está correta. Dói ouvir o que não merecemos… dói não ouvir o que merecemos. Dói a ausência, a mensagem não respondida, a mensagem não lida, a ligação não recebida… Dói o parabéns não dado – o parabéns não escutado. Dói o aniversário desastroso, a viagem imperfeita, a batida que quebrou tudo…por fora e por dentro. Dói uma criança sem os pais, dói um adolescente não compreendido. Dói o escuro da solidão. Dói a mágoa e o arrependimento. Dói não poder voltar no tempo e dói tanto não poder adiantá-lo. Dói a queda do avião, dói o infarto no coração, dói ouvir não…e dói ouvir sim, também. Ouvir dói e não ouvir…é uma dor silenciosa. E o silêncio dói tanto… e também dói o barulho. E a falta de ambos dói e dói.
Dói repetir que dói, assim, tantas vezes… porque respirar dói, se você percebe cada centímetro de vida se esvaindo em cada instante…
E como a vida dói, a morte dói – só que mais, muito mais. A morte dói porque viver dói muito. E perder dói inteiro, todo o ser. Desde os olhos até a última unha. Dói perder e dói lutar para aprender a viver com a perda. Porque perder é não ter. E não ter é morrer. Não ter é como não viver.

O que resta, já que dói, é viver cada perder com amor. Porque o amor dura como o ar. E porque quando o ar acaba, morremos. Por isso, ame. Ame como se amar fosse a primeira e última coisa. Porque é.

Thay Bettini
02 de janeiro de 2022.